terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A minha experiência na Quinta do Vale da Lama


A minha experiência na Quinta do Vale da Lama dava um livro.
2015 foi o ano mais rápido da minha vida até ao momento! Grandes cortes umbilicais aconteceram, desde o falecimento da minha mãe à desvinculação de uma IPSS onde trabalhei durante quase 10 anos e que era a minha segunda casa. Foi o momento oportuno para dar início à manifestação de um novo paradigma, mudança que já vinha a acontecer interiormente há alguns anos…
E dei início a esta nova fase num local maravilhoso e extremamente seguro para a minha primeira experiência de vida em comunidade. No Vale da Lama, estamos em família.
A Quinta do Vale da Lama é uma quinta de cerca de 42 hectares, que tem o objetivo de proporcionar experiências transformadoras às pessoas que por lá passam, num contexto de regeneração da terra. O projeto Vale da Lama que é hoje nasceu a partir do Projeto Novas Descobertas, cujo objetivo base é a inclusão/integração social . E é a partir desta visão que tudo o resto foi crescendo e materializando, sob formas diversas.
As portas do Vale da Lama são abertas aos visitantes de diversas formas: dias abertos à comunidade com workshops; concertos e noites de pizza; cursos e eventos; seminários; campos de férias; retiros e bed&breakfast; programas de voluntariado para vizinhos e programas de voluntariado residenciais na comunidade.
Eco-Resort

A minha contribuição para este projeto foi alocada ao círculo do Eco-Resort, onde promovemos experiências transformadoras através dos dias abertos, eventos e turismo responsável. A minha função foi de booking/hosting de retiros e bed&breakfast. Mas, tentando explicar melhor o conceito, este não é um Eco-Resort qualquer. Está inserido num projeto e missão muito maior e foi aberto como um negócio social, para proporcionar complementaridade e suporte às restantes valências: Regeneração do solo da quinta, do projeto educativo Novas Descobertas e da Comunidade residente. Os princípios da permacultura são transversais a todo o projeto. E era toda esta complexidade e integração dos conceitos que eu procurava. O “meu mundo” sempre foi o mundo social, mas vejo o turismo como uma excelente porta de entrada de troca e partilha de ideais para um mundo mais sustentável em todas as suas dimensões. E, para mim, só faz sentido ver o turismo por esta perspetiva. Após ter tirado o Curso de Design em Permacultura (PDC) e uma pós-graduação em gestão do turismo e hotelaria, queria ter uma experiência que me proporcionasse esse crescimento e partilha, sempre com esta visão holística e transformadora do mundo. Mas também queria ter uma experiência que me permitisse crescer como pessoa no seu todo, de me conhecer melhor, de me pôr à prova, de estabelecer relações, de me permitir descobrir outros paradigmas e de os vivenciar. Viver os princípios da Permacultura por dentro e por fora é um desafio constante nesta quinta, seja na aplicação do conceito à regeneração do solo e produção de comida, à utilização de energias limpas, aos sistemas de captação e retenção de água, à bioconstrução, à vivência comunitária, ou até mesmo à resolução de um problema pessoal.
A sensação que tive durante a minha estadia no projeto foi de que aquilo que tenta transmitir para o mundo exterior é exatamente o que tenta transformar começando por dentro. A transformação que se sente fora muitas vezes é apenas a transpiração do que se passa dentro do Vale da Lama. Muitas vezes senti, no Eco-resort, que aquilo que foi mais significativo para os clientes/visitantes foi a partilha da nossa filosofia. Foi integrar as pessoas nas nossas rotinas, foi abrir-lhes as portas para perguntas, foi simplesmente mostrar o que somos e fazemos e para onde queremos ir. A maior parte das vezes, era só permitir que o Vale da Lama respirasse e que o seu coração batesse, para que quem chegasse perto o sentisse sem ser preciso falar ou utilizar grandes termos técnicos para o que aqui se faz. O que aqui se vive transpira para o mundo sem grande esforço. O Vale da Lama é tão especial, que parece manifestar o melhor de nós.
Neste contexto, foi possível desenvolver-me como pessoa e profissional de uma forma extraordinariamente completa e transformadora.

A fazer pão caseiro

Voluntários e colaboradores têm um horário de trabalho no setor/círculo em que colaboram. Fora desse tempo, têm acesso a uma panóplia de atividades de aprendizagem que acontecem na quinta, permitindo o crescimento noutros temas que tenham interesse. Além disso, têm total acesso às instalações, desde a utilização da piscina, biblioteca, internet, etc. Mas, se preferirem, podem simplesmente pegar numa bicicleta e ir até à praia usufruir do seu tempo livre.




Paralelamente à minha atividade principal no projeto, outras áreas de interesse e aprendizagem foram surgindo ao longo da experiência, nomeadamente nos sistemas de governança organizacionais utilizados por esta Organização. Como psicóloga organizacional de formação de base, sempre me interessou muito perceber o que realmente faz as pessoas sentirem-se motivadas e produtivas. Tenho muita pena que a grande parte de nós se sinta preso a um trabalho apenas porque precisa de pagar contas no final do mês. E, por isso, tento perceber como tornar o trabalho em algo desafiante, motivador e que sobretudo traga crescimento, bem-estar e autorrealização aos indivíduos. E vejo o Vale da Lama a ter uma proposta para isto: tem estado a implementar a Holocracia nos círculos da Quinta, Eco-resort e Projeto “Novas Descobertas” e a Sociocracia no âmbito da Comunidade residente. Basicamente, abrem portas a um novo paradigma de gestão organizacional, mais descentralizado e empoderador dos seus recursos humanos. Aqui fomenta-se o envolvimento e autonomia do staff, mas também o seu desenvolvimento como seres humanos com vocações, competências, gostos distintos, como seres holísticos que têm um percurso de desenvolvimento pessoal e profissional que importa cuidar. É um modelo extremamente desafiante, utópico para muitos, mas que tem um fundamento base, para mim essencial.

Organigrama da Quinta do Vale da Lama
Foi muito interessante ver como um sistema destes pode realmente funcionar e é gratificante ver a coragem dos fundadores, que apostam muito na capacitação da sua própria equipa no caminho da autogestão. É preciso ter uma grande coragem e confiança para empoderar uma equipa, uma comunidade de residentes que ganha a sua própria força, autonomia, expressão, forma e que tende a tornar-se ela própria num organismo vivo, fora do controlo de qualquer hierarquia forçada. E também é disto que se trata quando nos referimos ao sonho do Vale da Lama.
Termino esta experiência com uma maior clareza e certeza de que quero aprender mais sobre estes sistemas e reproduzi-los. 
 

 Outro ponto alto da minha experiência foi a alimentação. Parte do que é consumido é proveniente do trabalho na quinta, mas ainda é necessário comprar muitos produtos fora. Produtos maioritariamente biológicos e, sempre que possível, de produtores locais. É um privilégio aceder a todos estes alimentos, amados e cuidados por todos, e sentirmo-nos parte disso. Respeitamos e somos respeitados pela terra, que nos faz todos os dias a sua dádiva.

 

Noite de pizzas


Os eventos e noites de pizza em que participei também foram grandes momentos de realização pessoal e de grupo, onde pude sentir a alegria contagiante no trabalho, abrir as portas da Casa do Vale da Lama, acolher caras novas, divertir-me e sentir a união da equipa. A humildade e o espírito de serviço, aliados à vivência em comunidade, resultam num excelente trabalho de equipa, onde naturalmente as coisas fluem. Numa das noites de pizza, alguém chegou a dizer-nos que estávamos tão sincronizados e alegres, que parecia que estávamos numa dança. E eu diria que sim. Era a dança do amor, que é aquela que melhor se faz no Vale da Lama…





Aula de Yoga para a Comunidade Residente



Outra área que desenvolvi foi a da espiritualidade. O local convida, as pessoas que nos chegam convidam e a possibilidade que tive de participar em pequenos eventos e workshops permitiram-me chegar um pouquinho mais fundo dentro de mim e, até, descobrir novas vocações e interesses nesta área.








Outro grande desafio sentido, e que me tem acompanhado desde sempre, foi o tema da sustentabilidade. A palavra que tanto está na moda, mas que representa coisas tão distintas de pessoa para pessoa e de organização para organização.








O mundo das organizações sociais sempre foi do meu interesse. Sempre quis estar envolvida e fazer a diferença através desse mundo, por isso fui fazendo imenso trabalho voluntário em diferentes organizações, embora a minha atividade profissional a tempo inteiro já fosse numa organização social.
O tema da sustentabilidade foca diversas dimensões. Uma que sempre me desperta interesse é perceber como se (sobre)vive financeiramente neste mundo social. A maior parte das vezes, com financiamentos do Estado e doações de particulares. Mas poderá um projeto social pagar as suas próprias operações? Como é que pagamos as nossas contas ao final do mês com um projeto que tem uma estrutura que não é voltada única e exclusivamente para o lucro? Com um projeto que tem uma visão de utilizar o excedente para crescer e produzir mais valor para o mundo, em detrimento de gerar riqueza financeira?
Todas as organizações, tenham ou não o lucro como objetivo principal, têm a responsabilidade e dever da sobrevivência, para perpetuarem no tempo e assim continuarem a gerar valor. As organizações sociais não fogem a esta regra.
E após alguns anos a assistir e a viver algumas realidades na área social, percebo que é possível, sim, criar negócios sociais que respondam a estas questões. Uma Organização sem fins lucrativos não está necessariamente condenada à inviabilidade financeira ou à dependência de terceiros para existir. Mas, logo de seguida, surgem outros desafios mais de ordem prática, mas muito interna de cada indivíduo. Para termos excedente a ser reinvestido no projeto, há que saber viver e posicionar-se no mundo dos mercados, mas também é importante não perder as rédeas da situação e deixar-se levar por isso, pondo em causa o sonho que criou o projeto. Há que trabalhar muito na manutenção do(s) sonho(s). E a lição que tenho tirado ao longo dos últimos anos é que o equilíbrio desta gestão de forças situa-se num ponto distinto em cada um de nós, e este desafio acontece sempre que tentamos evoluir para um novo patamar. Parece-me que a grande sabedoria está nesta gestão do equilíbrio.
Um projeto que pretenda ser sustentável nas suas dimensões ecológica, social e económica tem muito que se lhe diga… Cada dimensão é um mundo infinito de aprendizagens, de boas práticas, de escolhas a fazer. E certamente cada pessoa ou organização gere o que para si é crucial em termos destes conceitos.


Continuo neste caminho fantástico de descoberta, com uma convicção ainda mais segura de que tudo é possível com um grande equilíbrio entre os valores que regem os nossos processos e o resultado que queremos ver no exterior. A sustentabilidade que queremos ver no mundo começa em nós e na forma como nos relacionamos connosco e com o que nos rodeia.







Resta-me agradecer por esta oportunidade de aprendizagem pessoal e profissional no Vale da Lama, que me levou a dar mais um passo na direção daquilo que quero para mim e para o mundo. Sinto-me imensamente grata por fazer parte deste grande sonho que une tanta gente em prol da sua materialização.
Um bem-haja aos fundadores, criadores deste sonho, e a toda a equipa que tem vindo a materializá-lo e a coconstruí-lo no terreno.
Hoje sinto-me um ser em aprendizagem, mas muito mais rico, completo, realizado e em grande transformação.
Well done team!

Vale da Lama Team 2015

Para saber mais informação sobre este projeto, por favor consultar:
Quinta do Vale da Lama
Projeto Novas Descobertas
Vale da Lama Eco-Resort

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Raquel Ribeiro. Com tecnologia do Blogger.