sábado, 3 de novembro de 2012

DIA 6 - Sinto-me ridícula...

Hoje não pude esperar pela noite para escrever o que sinto.
Aqui a vida pára e olho para mim e para Portugal e tenho vergonha… Tenho vergonha das preocupações estúpidas q muitas vezes tenho. Sinto-me ridícula… Há aqui pessoas que não têm nada: nem o que comer, nem dinheiro, nem saúde. Não têm nada…
De manhã fomos à Missa na Cidade das Neves. É uma pequena Igreja mesmo em frente ao mar. Ouvem-se as palavras do Padre misturadas com as ondas do mar. Durante essa hora alguns assuntos de Portugal passaram a fazer sentido na minha cabeça e fiquei mais em paz.
Depois vim para a Missão e hoje de manhã estive na Enfermaria a ajudar nos pensos. Há imensa gente com feridas. Feridas a valer… Houve uma Sra que veio mudar o penso de uma operação que fez impressionante! Ela fez já duas operações, porque teve uma ou duas cesarianas que deram problemas e agora teve que tirar o intestino. Tem uma grande cicatriz na barriga e um pedaço do intestino de fora. As Irmãs põem-lhe uma luva à volta desse pedaço de intestino que está cá fora para ela fazer as necessidades lá para dentro. Porque cá não há sacos próprios para esse efeito… Depois ela tem que ir mudando a luva, quando está cheia. A Irmã esteve a desinfectar aquilo e a senhora estava quase a chorar, com dores. Foi realmente impressionante! Naquele momento só consegui pensar naquilo e as preocupações com a minha vida, comigo, ou com Portugal deixaram de existir.

É miséria absoluta. Eles nem conseguem tratar-se, porque é tudo a (des)ajudar: a água está contaminada e a falta de vitaminas, segundo uma das Irmãs, provoca-lhes imensas doenças e feridas que estão sempre a abrir. Eu cá também acho que é possível que algumas destas pessoas que têm estas feridas tenham HIV e é por isso que as feridas aparecem e não cicatrizam… Mas eles portam-se à altura! Nenhum chorou. Se fosse eu seria uma vergonha… Nós vivemos num mundo de contrastes e não é justo… Não é justo que existam pessoas que tenham direito à educação e à saúde e que outras não tenham esse direito. Todos devíamos ter direito ao essencial. Todos…

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Raquel Ribeiro. Com tecnologia do Blogger.