quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O Balanço da Viagem, dois dias depois...

Aconselho vivamente toda a gente a ir ver esta realidade. E não vale a pena termos medo das árvores que caem, ou dos cocos que matam gente, porque isso também faz parte da beleza e da riqueza interior do sítio…


Bom, agora que já me sinto mais distanciada da situação, consigo captar a principal mensagem do último episódio da viagem (VER POST Uma morte trágica...): perceber que a vida é demasiado curta para nos incomodarmos com o que não é essencial e valoriza-la por isso.
Esta viagem, bem como todos os percalços que foram acontecendo nos dias antecedentes proporcionaram-me um crescimento interior enorme e estou muito agradecida por isso. Faria tudo outra vez!
Sinto que a minha missão é lá, junto dos que menos têm e mais precisam… Pelo menos durante algum tempo. 
 
Hoje sou uma pessoa melhor e mais feliz e poderei ser ainda muito mais :)
Wilson a explorar ;)
O querido Wilson



No infantário das Irmãs

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

DIA 15 - Uma morte trágica...



Estive a uns centímetros da morte... Literalmente… Mas alguém esteve mais perto do que eu...
Realmente não temos mesmo a noção de que a linha que nos separa da vida e morte é muito ténue…

Logo de manhã fui fazer uma excursão ao sul da Ilha de S. Tomé, passando pela Praia Jalé, um ecoresort, a Praia Piscina, a Praia Pesqueira e à Roça de São João de Angolares, onde foi gravado o Programa "Na Roça com os Tachos". 
 
Acabou por se juntar um casal muito simpático, que eu tinha conhecido na aventura do dia anterior no Ilhéu das Rolas (VER POST "O fantástico imprevisto!)
Fomos os três mais o guia fazer esta excursão.
Quando estávamos sentados a almoçar, uma árvore começou a ranger. Começamos a olhar uns para os outros, quando o guia disse “é madeira!” e desatou a correr. Nesse momento gerou-se o pânico e toda a gente desatou a correr. Eu fugi atrás dele e encolhi-me debaixo de uma mesa com as mãos na cabeça. Depois do estrondo olhei para a nossa mesa e vi o senhor que estava em frente a mim, na mesma mesa, ferido, preso num buraco. Um ramo enorme, com diversos galhos, tinha caído por cima dele. Passado uma hora morreu nos braços da mulher, a caminho do hospital. É inacreditável... Incompreensível... Por segundos pensei que ia morrer e quando o pânico dá tréguas vejo o senhor enfiado pelo chão dentro. Nunca vou esquecer esta imagem, nem o apoio do guia e dos São Tomenses a socorrerem as pessoas. 

A mesa onde estávamos sentados...
Visto do lado oposto...
Este senhor, de 55 anos, fracturou uma perna, um braço, mas o problema foi o traumatismo craniano, que provocou hemorragia interna. Ele foi transferido para o Hospital Central de São Tomé, mas a meio da viagem já iniciaram a tentativa de reanimação. Foi horrível…
As horas seguintes foram passadas ao lado da mulher dele, Portuguesa, que tinha acabado de perder o marido numas férias em São Tomé.. Nunca vou esquecer aquele olhar desesperado. Parecia uma criança, ajoelhada aos meus pés, a pedir que ele voltasse.
Nessa noite consegui descansar 3 horas, antes do meu voo de regresso a Portugal. A minha missão naquele dia e noite eram com aquela senhora, que ficará para sempre no meu coração...
  
Gostava ainda de dizer que a senhora embaixadora foi de uma correcção e dedicação extremas, assim como todas as pessoas do Hospital Central de São Tomé. O guia que estava connosco teve uma intervenção extremamente rápida e fundamental, bem como as pessoas locais. 
Gostava também de dizer que estes acidentes ocorrem em qualquer lugar do mundo...

domingo, 11 de novembro de 2012

DIA 14 - O Fantástico imprevisto!

Estava previsto ficar duas noites no Ilhéu das Rolas e por volta das 16h30 começo a ouvir uns rumores que não há água, não há luz, e quando dou conta está a recepção a pedir desculpa, mas diz que um gerador avariou na semana passada e agora avariou o segundo gerador e não sabem quando virão a água e a luz. Uma peça avariou e tinham que ir à cidade de S. Tomé busca-la, o que queria dizer que pelo menos durante aquela noite íamos continuar assim.


Eu achei que seria super emocionante passar lá a segunda noite à base de baldes de água e velas, até porque no dia a seguir tinha uma excursão a iniciar no Sul da Ilha de São Tomé, do outro lado do Ilhéu das Rolas, mas depois comecei a ver toda a gente a ir embora e fiquei com medo de estar lá num quarto sozinha, com tudo às escuras na Ilha, sem nada para fazer durante as 12 horas seguintes… E pronto, decidi vir também.  

No bote

Foi uma aventura! Tudo numa excitação a arrumar as malas já meio às escuras, para apanhar os barquinhos. Sim, porque o barco grande também estava avariado... Tivemos que vir nuns botes de madeira que levam 16 pessoas. Foi um para nós e outro para as malas. Já era mesmo noite cerrada quando atravessamos o mar. Foram 20 minutos de barco, sem ver nada, apenas as estrelas… 

Acertamos com o pequeno cais, com a ajuda dos faróis do nosso autocarro do outro lado. E aquela noite estava estrelada, que nem é costume…  
Já no autocarro, a caminho da cidade de S. Tomé

Havia gente mesmo furiosa e havia uma senhora já a falar em pedir indemnizações. É ridículo... 
Lá ajudei a carregar as malas e andei com os locais e depois conversei um bocadinho com o motorista e perguntei-lhe como é que ele vivia e pedi-lhe desculpa pelos comentários. Ele riu-se e respondeu-me que os turistas são mesmo muito esquisitos. Não percebe o que querem…
Parece-me que quando vamos para uma cultura diferente devemos ter abertura e respeitar as suas normas. A "norma" europeia é válida para a cultura europeia, mas em África é tudo diferente e se não queremos sujeitar-nos é melhor nem irmos…

O meu alojamento no Ilhéu das Rolas :)
A piscina do resort do Ilhéu das Rolas
As praias do Ilhéu das Rolas
O resort e o Ilhéu, visto de cima
Marco do Equador, que divide hemisfério norte e sul
 Latitude 0 e Longitude 6º 31' Este


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

DIA 12 - A Despedida das Irmãs, a Nostalgia e a Avaliação da Viagem


Sem dúvida, o meu lugar é em África…
Sem dúvida, o meu lugar é no trabalho social…
Sem dúvida, quero fazer e ser a diferença no Mundo.
Está na hora de voar…

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

DIA 11 - Momento Único: a Catarse

Naquele cenário maravilhoso deu-se a catarse. Não consegui evitar começar a chorar sem parar. Era ali que eu precisava de aliviar toda a tensão, tudo aquilo que queria contar e partilhar, mas que parecia não ter havido oportunidade até então. Era ali o momento seguro para o fazer. Encontrar-me era umas das razões pelas quais vim para São Tomé e agradeci muito o facto de ter tido aquele momento para o conseguir fazer.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

DIA 10 - Visita à ONG Médicos do Mundo

Depois do almoço fui conhecer a Médicos do Mundo. 
Eles trabalham sobretudo com a população que tem HIV, fazendo visitas domiciliárias para cuidados médicos e monitorizando também um grupo de auto-ajuda, com psicólogas. Trabalham também com escolas e na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Têm um grupo de activistas São Tomenses, remunerados pelo projecto, que fazem as sessões de sensibilização nas escolas. As Portuguesas trazem conhecimento técnico, mas eles é que conhecem a população e os seus costumes, e eles é que deverão ser líderes, para que depois possam continuar o trabalho. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

DIAS 8 E 9 - Saída da Missão e perspetiva de Hotel

Dia de regresso à cidade de S. Tomé, para ficar no Hotel Pestana Miramar. As Irmãs Franciscanas, onde fiquei a dormir a primeira semana, trouxeram-me. Na ida passamos na Irmã Felismina, das Irmãs de Guadalupe, para entregar mais 2 livros da Manuela Mota Ribeiro. 

Soube-me bem entrar no quarto e sentir o ar condicionado. Ah, que saudades eu tinha do fresquinho… Isto tem é muito mais mosquitos! No quarto apanhei logo uns 4 mosquitos, mas fora do quarto, nas zonas comuns, são às dezenas… A minha cama tem rede mosquiteira à volta, o que torna a coisa melhor :)
Uns 30 min depois de eu estar no quarto recebi uma chamada a dizer que a Irmã Mª Emília, que me tinha vindo cá trazer, estava na recepção. Fui lá e era ela com umas compras que foi fazer ao mercado para mim: trouxe-me jáca, que é um fruto que gosto muito, uvas e maçãs. Realmente já não há disto… Que amor!

sábado, 3 de novembro de 2012

DIA 6 - Sinto-me ridícula...

Hoje não pude esperar pela noite para escrever o que sinto.
Aqui a vida pára e olho para mim e para Portugal e tenho vergonha… Tenho vergonha das preocupações estúpidas q muitas vezes tenho. Sinto-me ridícula… Há aqui pessoas que não têm nada: nem o que comer, nem dinheiro, nem saúde. Não têm nada…
De manhã fomos à Missa na Cidade das Neves. É uma pequena Igreja mesmo em frente ao mar. Ouvem-se as palavras do Padre misturadas com as ondas do mar. Durante essa hora alguns assuntos de Portugal passaram a fazer sentido na minha cabeça e fiquei mais em paz.
Depois vim para a Missão e hoje de manhã estive na Enfermaria a ajudar nos pensos. Há imensa gente com feridas. Feridas a valer… Houve uma Sra que veio mudar o penso de uma operação que fez impressionante! Ela fez já duas operações, porque teve uma ou duas cesarianas que deram problemas e agora teve que tirar o intestino. Tem uma grande cicatriz na barriga e um pedaço do intestino de fora. As Irmãs põem-lhe uma luva à volta desse pedaço de intestino que está cá fora para ela fazer as necessidades lá para dentro. Porque cá não há sacos próprios para esse efeito… Depois ela tem que ir mudando a luva, quando está cheia. A Irmã esteve a desinfectar aquilo e a senhora estava quase a chorar, com dores. Foi realmente impressionante! Naquele momento só consegui pensar naquilo e as preocupações com a minha vida, comigo, ou com Portugal deixaram de existir.

É miséria absoluta. Eles nem conseguem tratar-se, porque é tudo a (des)ajudar: a água está contaminada e a falta de vitaminas, segundo uma das Irmãs, provoca-lhes imensas doenças e feridas que estão sempre a abrir. Eu cá também acho que é possível que algumas destas pessoas que têm estas feridas tenham HIV e é por isso que as feridas aparecem e não cicatrizam… Mas eles portam-se à altura! Nenhum chorou. Se fosse eu seria uma vergonha… Nós vivemos num mundo de contrastes e não é justo… Não é justo que existam pessoas que tenham direito à educação e à saúde e que outras não tenham esse direito. Todos devíamos ter direito ao essencial. Todos…

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

DIA 4 - O choque da pobreza e a realidade social

Por norma os dias são mt intensos, pelo próprio clima e pela grande quantidade de coisas q tento absorver e visitar.

Bom, mas de manhã estive no infantário a ajudar uma das Irmãs a fazer uma reportagem fotográfica para outra ONG que as ajudou. De tarde fui visitar as roças até Santa Catarina. Foi um trabalho de apoio domiciliário que durou à volta de 4h. As Irmãs levam alguma medicação no jipe e vamos visitando as pessoas que vivem nas roças. 

Raquel Ribeiro. Com tecnologia do Blogger.